História

São Miguel de Gonça é uma importante comunidade do concelho de Guimarães cujas referências históricas remontam às Inquirições de 1220, feitas pelo monarca Dom Afonso II, sob a designação de "parrochia Sancti Michaelis de Gunza". Também nas Inquirições de 1258, ordenadas por Dom Afonso III, São Miguel de Gonça aparece referenciado como "ecclesie Sancti Michaelis de Gonza de Astrulfi". No entanto, este último antroponímico "Astrulfi", nome ligado a um vasto latifúndio pertencente a um espaço dominial, remete as primeiras referências históricas à comunidade para 1059, mais precisamente para um documento de Dom Fernando de Leão, onde o monarca ordena um Inventário das Terras e Igrejas de Guimarães pertencentes ao cenóbio construído, no século IX, por Mumadona Dias e onde já figurava a "Vila Astrulfi", situada numa zona compatível com a actual localização da paróquia. [1]

Mapa antigo do Concelho de Giumarães Venda de Terras em Abeleira - Gonça (1229)

Mapa Antigo do
Concelho de Guimarães

Documento de venda de terrenos em Abeleira - Gonça (1229)

Sobre a etimologia toponímica desta região, Joseph M. Piel concluiu que um número substancial de designações de actuais freguesias, lugares ou simples quintas e casais teria origem em nomes pessoais germânicos, geralmente na sua forma genitiva, como é o caso de Gonça, como o comprovam também algumas investigações históricas e arqueológicas. [2]
Existem várias referências históricas que comprovam a ocupação humana desta comunidade de uma forma contínua ao longo dos últimos vinte séculos.
- Há cerca de dois mil anos, encontrava-se radicado em Gonça um Castro, no contexto cultural castrejo da Idade do Ferro.
- Recentemente, em Vale de Mouros, um lugar da freguesia, terão surgido vestígios de um habitat datado do domínio romano.
- Aos séculos IX-XI, período alti-medieval da Reconquista Cristã, corresponderão possivelmente as sepulturas abertas no saibro, o lugar do Cruzeiro.
- Junto á Igreja Velha de São Miguel de Gonça, detectou-se igualmente uma necrópole baixo-medieval (séculos XII-XIV).
- Em meados do séc. XIX, segundo o Dicionário Portugal Antigo e Moderno, editado sob responsabilidade de Augusto Pinho Leal, [3] a freguesia de Gonça - ou Gonce - contava com 130 fogos, era considerada "terra fértil", propicia á prática agrícola, o seu orago era o "archanjo" São Miguel e a autoridade religiosa era representada pelo "abbade".

Dicionário de Portugal Antigo e Moderno

Capa do Dicionário
"Portugal Antigo e Moderno"

Inquérito Paroquial de 1842

Um dos artigos mais curiosos publicados até hoje sobre a freguesia de Gonça diz respeito ao Inquérito Paroquial de 1842. [4] Num conturbado período de implantação social e cultural do liberalismo, o Minho viu-se assolado por várias revoltas e motins do qual a Revolução da Maria da Fonte (1846) é um bom exemplo. Num clima de insegurança e de instabilidade governamental, bem retratada nos romances de Júlio Dinis, destaca-se a transição entre as ruínas da velha ordem tradicional e os sintomas da nova ordem que lentamente se impõe. Em A Morgadinha dos Canaviais (1871) o autor portuense recorda-nos o conturbado período de alterações económicas e políticas introduzidas pela legislação liberal, assim como o desenvolvimento e expansão das obras públicas, as eleições e os enterramentos nos cemitérios. Por seu lado, n' Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871), a temática centra-se nas consequências sociais da abolição dos direitos senhoriais no novo regime da propriedade, através do drama da decadência de uma família fidalga e da ascensão de novas personagens com influência política e social, como o conselheiro, filiado no partido e deputado pelo círculo.

Num impulso fiscalizador, antecipando o primeiro recenseamento geral da população (1864), a Câmara de Guimarães distribuiu a todas as paróquias do concelho um cuidado inquérito onde procurava averiguar a situação das suas gentes rurais. Constituído por dezassete perguntas, o interrogatório histórico-geográfico enviado a todos os párocos do concelho de Guimarães constitui um importante documento com um diverso e rico número de informações.
Este precioso instantâneo da pequena freguesia foi escrito pelo pároco da época, Manoel Luiz d'Antas Pereira e Cunha, num reconhecido esforço de extrair a verdade aos objectos. Apesar da distância temporal que nos separa, convém transcrever aqui algumas passagens sobre as gentes e os costumes de Gonça: "É o povo inclinado aos divertimentos, pelos quais deixa até o trabalho, e várias vezes acompanha este com um toque de instrumentos".
[...] Os Vícios dominantes são os que se deduzem, e acompanham ordinariamente as mencionadas inclinações: a ociosodade, a gludice, crápula, incontinência, e rapacidade. As virtudes dominantes são as que tocam também os próprios sentidos, de maneira que na tormenta gemem. Passada ela esquecem-se que foi. Um povo tal não pode deixar de ser pobre, e de facto este o é no geral, pois a abundância e a riqueza acompanha o trabalho com assiduidade, parcimónia, e execução dos vícios". [5]

Na viragem dos séculos XIX-XX, de acordo com o historiador Rui Ramos, [6] Portugal era um reino com uma população eminentemente rural: cerca de noventa por cento da população portuguesa residia no concelho onde nascera, sintoma de uma sociabilidade activa entre toda a população, dado que todos se conheciam desde a infância. Por outro lado, a maioria dos lugares do reino eram pequenos núcleos populacionais com menos de mil habitantes, comunidades que se agrupavam num agregado social relativamente autónomo, o concelho.
A população rural não constituía uma camada homogénea, quer a nível social como cultural. As relações de sociabilidade limitavam-se á família e aos vizinhos, e raramente trespassavam para uma aldeia ou concelho vizinhos. A rivalidade entre aldeia foi ganhando contornos violentos, afastando irremediavelmente qualquer prática social ou cultural.
Para a dominante classe média urbana, estes acontecimentos eram sintomas de falta de civismo: "Numa rudeza sem escrúpulos, o literato Ramalho Ortigão, saído de Lisboa para visitar o Minho, gastava páginas a censurar a 'falta de noções', o 'empirismo' com que os brutos campónios aproveitavam as matas e as águas (As Farpas, vol. I, pág. 58). Nos romances naturalistas, os inevitáveis figurantes do povo benzem-se muito, dão louvores a 'Nosso Senhor Jesus Cristo', dizem 'bosselência' - enfim, uma caricata representação do que o livre-pensamento dos autores via como a vaza supersticiosa do catolicismo, misturada com uma redentora ingenuidade". [7]

Florbela Espanca

Florbela Espanca Casa onde viveu Florbela Espanca

Florbela Espanca

Casa onde viveu Florbela Espanca

Florbela Espanca, poetisa que viveu durante algumas semanas em Gonça, encontrou pessoas humildes e simples, demasiado simples para a sua conturbada personalidade. Casada, em 29 de Junho de 1921, com António José Marques Guimarães, um alferes de artilharia da Guarda Nacional Republicana filho da terra minhota, Florbela Espanca passou uma curta estadia em Gonça - em Novembro de 1923 - enquanto recuperava de uma recaída, período em que contactou com algumas pessoas da pequena comunidade. [8]

Século XX

Em 1998, o pároco Cipriano da Cunha encontrou no Arquivo Paroquial de São Miguel de Gonça um riquíssimo documento histórico: um "diário económico" escrito pelo Padre João Ferreira Gomes, pároco de Gonça desde Setembro de 1902 a 22 de Novembro de 1947, data da sua morte. O livro em causa foi classificado pelo próprio autor como um "diário", mas é muito mais do que isso. Este exemplar manuscrito é um importante registo económico de todo o tipo de movimentações financeiras efectuadas pelo Padre João Ferreira Gomes enquanto pároco, cidadão ou mesmo como Presidente da Junta de Freguesia. No entanto, é também um precioso documento que permite conhecer muitas particularidades da vida de um pároco de aldeia no início do século XX, mas também conhecer um pouco da vida de uma pequena comunidade rural do norte de Portugal num dos mais importantes momentos políticos da História Portuguesa do século XX, a passagem da Monarquia à República e todo o clima anti-religioso que marcou esse período. [9]
O papel do Padre João, como a maioria dos párocos na sua situação e na sua época, era muito importante para a vida comunitária de uma pequena aldeia rural, uma vez que a religião católica, e principalmente a eucaristia dominical, funcionavam como um importante factor aglutinador e de contacto entre as pessoas que, apesar de viverem geograficamente muito próximas, se encontravam socialmente muito distantes. Uma ida à cidade representava um encontro com outro Padre ou com amigos, possibilitava o acesso ao jornal, à lotaria, a material de escrita, ao alfaiate, ao Banco, à "Pharmacia", ou seja, um conjunto de bens e serviços que só estavam ao alcance de muito poucos. Esta ligação à cidade permitia-lhe tratar de vários assuntos de alguns dos seus paroquianos, nomeadamente assuntos de carácter burocrático.
Mas para além de sacerdote, João Ferreira Gomes desempenhava também as funções de Presidente da Junta de Freguesia de Gonça. Segundo Rui Ramos, "nas aldeias, onde frequentemente era a pessoa mais instruída das redondezas, o pároco, além de sacerdote, desempenhava o papel de principal agente do Estado e dos vários partidos políticos do regime". [10] A valorização social e moral da função religiosa nas terras minhotas eleva o representante local da Igreja para um posto de dirigismo político e ideológico. No período em causa, o envolvimento político dos párocos manifestava-se um pouco por todo o território, mas com particular incidência no Norte do País.
Segundo testemunhos orais de habitantes mais idosos, o Padre João era um político muito activo e dinâmico, envolvendo-se de cabeça nas questões aparentemente mais complicadas, como a seguinte passagem: entre 24 de Agosto de 1910 e 12 de Setembro do mesmo ano, quando se deslocou "differentes vezes" a Braga e Guimarães para tratar de assuntos relacionados com a prisão "do de Segade", onde, segundo o que esta registado no diário, teve despesas "avultadíssimas". Sendo um dos poucos letrados e estando habituado a lidar com assuntos de carácter administrativo e burocrático, é natural que desempenha-se o papel de presidente da Junta. [11]
Algumas das referências mais recorrentes no diário do Padre João são as tascas ou tabernas, importantes espaços de convívio que servia de ponto de encontro, de conversa, de entretenimento e mesmo de jogo, tudo muito bem "regado" com o vinho da região. Aparentemente, o Padre João era um convicto frequentador deste tipo de fórum, tal é a quantidade de referência a este tipo de casas, nomeadamente a casa do "Gaspar", estabelecimento que não sobreviveu ao tempo.

"Tasca e Mercearia" da Isaurinha, Primeira Sede do Clube

"Tasca e Mercearia da Isaurinha", fotografia de 1948

Na tradição destes centros de convívio, a década de 1930 assistiria ao nascimento da "tasca e mercearia da Isaurinha", casa que serviria de primeira sede ao Atlético Clube de Gonça, clube criado em 1938 por D. Adozinda, filha da Isaurinha. Durante cinco décadas, esta "tasca" tornou-se o principal foco dinamizador da vida social de Gonça:
- foi o primeiro espaço público com rádio e televisão em Gonça;
- foi o primeiro espaço a servir café ao público;
- serviu de garagem aos primeiros transportes públicos da região (carro de aluguer e autocarro);
- foi palco da primeira exibição de cinema em Gonça;
- foi posto de correio durante várias décadas;


[1] Cfr. as investigações de Alberto Vieira Braga, "Curiosidades de Guimarães", in Revista de Guimarães, 1986, p. 129; e o artigo de Padre Armando Luís de Freitas, "São Miguel de Gonça", in O Conquistador, 13-XI-1992, p. 6.
[2] Joseph Piel, Os nomes germânicos na toponímia portuguesa, Lisboa, Imp. Nacional de Lisboa, 1936.
[3] Augusto de Pinho Leal (coord.), Portugal Antigo e Moderno. Diccionário Geographico, Estatístico, Chorographico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico. De todas as Cidades, Villas e Freguezias de Portugal e de grande numero de Aldeias, Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, s.d., Vol. 3, p. 300. [entrada GONÇA ou GONCE].
[4] "São Miguel de Gonça, por Manoel Luiz d'Antas Pereira e Cunha", in Revista de Guimarães, Vol. 108, 1998, pp. 307-318.
[5] Ibidem, p. 313.
[6] Cfr. Rui Ramos, "Os Últimos Anos do Estado Liberal (1890-1908): A Resistência ao Estado", in História de Portugal, dir. José Mattoso, coord. Rui Ramos, Lisboa, Editorial Estampa, 1994, Vol. 6, pp. 84-86.
[7] Ibidem, p. 86.
[8] Florbela Espanca, Sonetos, Mem Martins, Publicações Europa-América, Lda, 1995, p. 17.
[9] Paulo Cunha, "Diário de um Pároco de Aldeia", Trabalho de investigação histórica desenvolvido sob orientação da Dra. Guilhermina Mota, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1999.
[10] Cfr. Rui Ramos, op. cit., p. 84.
[11] Paulo Cunha, op. cit.