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Terreno de afirmação de identidades

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  Na sua actual forma de organização, o futebol oferece - dos campeonatos corporativos e regionais ao Campeonato do Mundo - um terreno privilegiado à afirmação das identidades colectivas e dos antagonismos locais ou regionais. É, sem dúvida, nessa capacidade mobilizadora e demonstrativa das pertenças que se deve procurar as razões da extraordinária popularidade deste desporto de equipa, de contacto e de competição. Todos os encontros entre cidades, regiões ou nações rivais assumem a forma de uma guerra actualizada onde não faltam os hinos, as fanfarras militares, nem as bandeiras dos adeptos, os quais formam aliás grupos de apoio com nomes como «brigadas», «comandos», «legiões» ou «falanges de assalto». No entanto, esta função de celebração das pertenças não dá conta, por si só, da tensão que se exerce sobre um jogo nem da virulência dos comportamentos.
  Para compreender, evitando os contra-sensos, um tal espectáculo dramático, cuja história se constrói perante um público que pode (ou pensa poder) inflectir o desfecho do mesmo, devemos começar por nos interrogarmos sobre as suas propriedades. Durante um jogo, o facto de se tomar partido por um dos lados é sem dúvida a estridente afirmação de uma identidade, mas também a condição necessária da plenitude da emoção. Não há nada mais insípido do que um encontro sem apostas, no qual as pessoas não se sintam elas próprias actores, no qual não se passa do «eles» ao «nós»! Os excessos verbais e gestuais, os emblemas brandidos ou os insultos gritados participam da natureza opositiva do espectáculo, e seria um erro sobrecarregá-los de sentido. Quererá isto dizer que sejam, por essa razão, desprovidos de sentido? Seguramente que não. O estádio é um dos raros espaços em que se soltam as emoções colectivas [...], em que é tolerado proclamar valores cuja expressão é socialmente proscrita no quotidiano (afirmar com crueza a aversão pelo outro, etc.).
  Dito de outro modo, as energias da linguagem do «adeptismo» devem ser procurados simultaneamente dentro e fora da lógica do jogo.

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  Em rigor, de que nos fala o futebol? Como acontece com os outros desportos, nele é exaltado o mérito, a performance e a competição entre iguais; de um modo brutal e realista, revela e permite reflectir sobre a incerteza e a mobilidade dos estatutos individuais e colectivos simbolizados pelas figuras emblemáticas dos jogadores no banco, pelas ascensões e as quedas das vedetas, pelas promoções e despromoções das equipas, e ainda pelos rigorosos procedimentos de classificação, essa regra de ouro das sociedades contemporâneas, fundadas na avaliação das competências.

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  Poder-se-á, por este motivo, reduzir o imaginário que opera no futebol à simples exaltação do mérito, a uma ilha de claridade, sob fundo de desespero, onde o sucesso seria rigorosamente proporcional às qualidades de cada um? Este desporto apresenta uma visão mais complexa e contraditária da existência, e esse é sem dúvida um dos seus encantos específicos.

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  Será necessário sublinhar que o futebol valoriza, tanto quanto a performance individual, o trabalho de equipa, a solidariedade, a divisão de tarefas e a planificação colectiva, à semelhança do mundo industrial de que é historicamente produto? Os lemas de muitos clubes [...] sublinham esta coesão necessária no caminho para o êxito. No terreno, cada posição precisa de pôr em prática qualidades específicas [...], de tal modo que os espectadores, na sua diversidade, possam aí encontrar uma paleta contrastada de possibilidades identificatórias [...]. Todavia, se o jogo de futebol é tão cativante ao ser visto; quanto é «bom para reflectir», é porque o aleatório, a sorte, nele ocupam um lugar singular, em virtude da complexidade técnica o do jogo - assente na utilização anormal do pé, da cabeça e do tronco -, da diversidade dos parâmetros a dominar para conduzir uma acção vitoriosa e do esmagador papel do árbitro, que tem que sancionar imediatamente infracções muitas vezes difíceis de apreender.

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  O futebol incarna assim uma visão simultaneamente coerente e contraditória do mundo contemporâneo. Exalta o mérito individual e colectivo sob a forma de uma competição que visa consagrar os melhores, mas sublinha igualmente o papel desempenhado na obtenção do êxito pela sorte e pela falcatrua, que são, cada qual à sua maneira; insolentes motejos do mérito. Por via destas mesmas propriedades, e pelo formato de justiça que nele está presente, o futebol toma visível um mundo humanamente pensável - incluindo quando o êxito não é alcançado. Em sociedades em que cada um, indivíduo ou colectividade, é instado ao sucesso, a derrota e o infortúnio só se tomam psicologicamente toleráveis quando são da responsabilidade da malignidade dos outros, da injustiça ou do destino. O futebol opõe o recurso da suspeita e de uma incerteza essencial a uma ordem irrecusável assente no mérito. O que seria de uma sociedade ou de um mundo inteiramente transparentes, onde cada um tivesse a certeza racional de ocupar, a justo título, o seu lugar?

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  Sob este pano de fundo universal, cada grande equipa nacional ou regional imprime a sua marca e as suas tradições específicas; isso é tão claro que, observando uma competição, podemos ler os valores gerais que moldam a nossa época, bem como os estilos particulares das colectividades que se defrontam. Este estilo, visto como símbolo de uma pertença comum, nem sempre corresponde - bem pelo contrário - à prática real dos jogadores; antes revela a imagem estereotipada, enraizada ao longo do tempo, que uma colectividade tem de si mesma e que procura transmitir aos outros; não corresponde ao modo como os homens vivem (e jogam) mas à maneira como gostam de contar a sua vida (e o jogo da sua equipa).
  Linguagem masculina de referência, que atravessa regiões e gerações, que põe em diálogo o singular e o universal, que confronta o mérito e a sorte, a justiça e a arbitrariedade, «nós» e «os outros», o jogo de futebol apresenta-se como uma das matrizes simbólicas profundas do nosso tempo. Sob a roupagem de um divertimento fútil, ilumina com crueza algo de essencial, tendo-se tornado uma espécie de paradigma da acção colectiva.

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  Christian Bromberger, «Futebol: o revelador de todas as paixões», in Le Monde Diplomatique, Junho de 2004, pp. 5-6.

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